1.
Exercício.
Para Mortais.
“El porvernir es tan irrevocable
como el rígido ayer.
...
El camino es fatal como la flecha
Pero en lãs grietas está Dios, que acecha.”
(Jorge Luis Borges, Para una versión del I King)
“O felice eloquenzia! O lieto giorno!”
(Petrarca, Il Canzoniere)
I
Uma voz
Escuto algo e nada se faz
Escuto nada e tudo se faz
Onde estou?
Uma voz
Todas as vozes são vozes
E não escuto a nenhuma voz
(Onde estou)
Uma voz
Testemunha tudo e muitas vozes
Testemunha tudo e nenhuma voz
(Onde estou)
Aquela voz
Singela voz, voz final
Quero escutá-la
Aqui onde estou.
II
Tenho estado à espreita
E assim, depois de tudo, tenho esperado.
E, apesar de tudo, repetições e maldições
Quem poderia espreitar
Mais que eu e mais que todos nós espreitamos
É assim que tenho estado à espreita
Não recuso
Não aceito
(Aceitar o fato, apenas o fato).
Aqui nada se diz
Aqui nada se enuncia
Nada quero dizer
Portanto, apenas espreito significados
Busca-se sentido
Busca-se o vazio mais que o vazio
Silêncio, apenas.
III
Não me procurem
Não me chamem
Não pretendo nada e não levarei ninguém a nada
Silêncio.
Não me convoquem
Não me alistem
Não desejarei nada nem ninguém
Band à part.
Não me considerem
Não me consolem
Não quero nada tão perto que possa ver;
Desistência.
Não me digam verdades
Não me expliquem isso ou aquilo
Não creio em Moral Absoluta
Incertezas.
IV
Apenas esqueçam
Nada mais além do esquecer
E tudo mais que o esquecer
Se puder, e, enfim, poderá.
Sente à mesa. E comece tal tarefa.
Ao terminar, se terminar, nada será dito
Poder-se-ia terminar
Se nada fosse dito
Dizer?
O não-dito
E encontrado o velado
No dito
Desde que dito
Desde que dentro das frases não-ditas
Há sempre o que não-dizer
Desde que dito.
V
Callao, Santa Fé
Avenidas onde jaz a memória
Fantástico fenômeno, o da memória
Que se impregna nas coisas
A memória não são as coisas
Não são coisas.
Mas jaz nas coisas:
Nas ruas, nos livros, nos Cafés
Há memórias em Buenos Aires
Lá as encontro, mais que tudo
Minhas memórias não sou eu
Não são as ruas de Buenos Aires
Re-memorar; que seja.
“Tarde que socavó nuestro adiós”; que seja
Não se explica que a memória esteja nas coisas
Mas não seja essencialmente as coisas. Que seja.
VI
Acordei muito pouco alegre.
E descrente de minha natureza
E descrente de mim mesmo.
Para que poetas?
Ao despertar, é disso que falo
Soube algo a dizer
Mas já perdi o tom e o sentido do que dizer
Para que poetas?
Portanto, que não me sigam
Que desdigam o que foi dito
Aqui ou alhures
Que se ouse para além do que é dito
É deste desconforto que me alimento
É desta circunstância —, deste entorno.
É de tudo o mais
É de tudo o menos.
VII
Não leia versos, ele cansam
Não interprete versos, eles se esvaziam
Sobretudo, não ouse lê-los em voz alta
Tudo isto cansará.
Não conceba poemas perlocutórios
Ou poemas que queiram comover
Ou atingir ou chegar
O Poema é o vazio e a inquietação.
Neste desconforto há o poema.
É quando achamos a palavra que possa expressá-lo
É o estar-sobrando: não agarro-me à ideia nenhuma.
O estar de menos. Mas também o estar de mais.
O Poema não causa
Não pode causar, não poderia fazê-lo;
Não leia versos, ele cansam
Não interprete versos, eles se esvaziam
VIII
Jamais entendi as manhãs ensolaradas
Ou os dias de puro sol
Que se contrapondo às nebulosidades nórdicas;
Originam elas o malheur de la conscience.
Sempre entendi as noites em que não se dorme
Ou noites insones de total escuridão
Que são plenas e repletas de horas;
São a origem das melhores horas.
Jamais entendi as festas
Ou as alegrias cênicas
Elas são gordas como a alegria insossa;
Não transcendem, não vão...
Se não podem ir
A nada chegam
A nada impelem
Que seja.
IX
A meu mestre Gerd Bornheim:
Quisera retornar a certos elementos fundamentais
Que são o pensamento e a palavra
Mas também práxis e ação
E fazer o agir humano na clareira do ser.
Sem autoevidência, sem certezas, inquietado
Tendo em vista o que jaz na abertura do ser
Ali concentrado, ali disposto.
Ali impera o que domina e refaz;
E nestas Grundstimmungen estou disposto.
Como a palavra poderia ajudar?
A nada instrumentalizando. Primeiramente.
Depois a tudo invadindo.
A tudo imperando.
Em tudo sendo.
Fui sou e serei eterno aluno de Gerd Bornheim.
X
Sobre o quadro “O Mito da Caverna”* de Enio Squeff:
Redescobre o traço que faz a luz
Que explode a luz.
Traço fantástico: nele não há Idéia
Se ela existe, — aqui passou a ser traço
Tracejados de luz e tinta;
Desfez a Idéia, e decomposta a Idéia,
Só se vê traço
Que sombras, estão aí
Apenas aí.
Vi lá grilhões.
E são fantásticos, são manchas que assim se fazem
Vi lá grilhões e braços que se abrem
Arrombam as peias
Se abrem, se movem, se mostram
No óleo há o fantástico (o fenômeno) e o traço.
XI
Não, não desejo
A nada desejo, não quero desejar.
Não me tentem convencer
Não desejam também.
Quero ser o espírito que sempre nega.
Posso sê-lo
Não me venham com rituais
Não me perdoem – não quero absolvição.
Não quero enquadrar, não quero entreter, nem suportar
A nada desejo
Esqueçam entonações e impulsos;
Assim, retornem às sombras
E que sejam sombrias
Mas podem apenas estarem ocultos.
Entretanto, apenas me leiam José Régio. Nada mais.
(Quero ser o espírito que sempre nega).
2.
Pleno, Plenum
“Das Geistige allein ist das Wirkliche”
(G.W.F. Hegel, Prefácio à Fenomenologia do Espírito)
“Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
—Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!”
(José Régio, Poema do Silêncio)
XII
Aprendi certa vez que o ponto de exclamação é tolo.
Sem nexo, patético.
Na poesia não existe “!”
Não poderia estar presente
Não se exclama, não se convoca
Por isso não existe lá um “!”.
E no mundo-da-vida existiria?
Não o creio.
O que se exclama na vida já se perde
É o que não transparece
Não chega a ser
Não se acha
O que poderia haver num “!”, senão falso espanto
Ou nenhum espanto
O verdadeiro espanto é meditação
Ou mesmo, pensamento.
XIII
O Prata de Montevidéu é para todos efeitos: Mar
Infinito onde se faz o azul
Ou o dourado do Sol que nele rebate,
Montevidéu é o que fomos.
A visão do Prata que surge,
A visão da Ciudadela — Ciudad Vieja.
Cafés, esquinas, praças e passado.
Montevidéu é o que fomos.
A visão do Prata em Montevidéu, perdoem-me,
É a visão da realidade total.
Sem aspas sem exclamação:
Punta Carretas, Punta Gorda, Positos
Montevidéu de noites de vento
De noites sem fim
De noites repletas
Como só sabem ser as noites.
XIV
Plaza San Martin
Contornos e cafés onde caminho
É só onde posso apertar o passo,
Sem mais, sem nada esperar.
Calle Esmeralda
Onde vi e verei passados
Onde cheguei, experiência primeira,
E lá posso estar.
Avenida Corrientes y Reconquista:
Lá anoiteceu.
Caiu, que noite
Serena noite.
No pasa nada
Buenos Aires de uma tensa noite
E de noites que sejam noites
Mas apenas noites.
XV
Hoje encontrei meus fantasmas.
Pleno deles chamei-os para se sentarem comigo;
Recusaram-se. Que bom;
Não nos merecemos, não queremos e desejamos nossas Indigências.
Hoje encontrei meus fantasmas.
Foram ternos, e desdenharam toda a condição humana;
São irmãos na Indigência.
Que sejam.
Quando os encontro, partilhamos
Por vezes, partilhamos
E sempre partimos.
Nunca invejosos da condição humana.
Fantasmas partilham o tempo,
Apenas aí são.
Olham e afastam-se
Apenas são.
XVI
Antero de Quental, o poeta-filósofo, matou-se num banco de uma praça,
Lá ficou. Tiros na boca, esvaiu-se.
Será que o avistaram.
Será que foi visto Antero de Quental?
Antero 1891 em seu ato último.
E que seja o derradeiro, que seja desconsolo imenso
Antero matou-se com tiros na boca. Dizem que dois.
Silêncio.
Toda escolha é ato solitário
Ainda mais que seja o ato final,
A desistência final.
Toda decisão reside em si, jaz em si
Antero decidiu-se por morrer
Escolha final, escolha derradeira
Se houve gente em volta não sei
Quem o terá observado? Silêncio.
XVII
“...il verso è tutto.”
(D’Annunzio, Epodo, IV)
Borges leu a Divina Comédia numa biblioteca de Buenos Aires
Edição bilingüe ele nós conta: inglês-italiano;
Lia os versos em inglês, depois em italiano.
Depois tudo relia em italiano.
Que destino
Encontrar Dante em Buenos Aires, numa biblioteca
Que encontro
Que versos puderam sair destes versos.
Um encontro:
Onde já não mais se é o que era.
Um deixar de ser
Um ser novamente.
Jorge Luis Borges caminhando numa rua de Buenos Aires,
Numa biblioteca de lá
Com Dante em suas mãos.
Nada mais como se era.
XVIII
“A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires:
La juzgo tan eterna como el agua y como el aire.”
Vivemos solitariamente em cidades
São nossos lugares
Onde somos. Talvez.
Não estou certo, mas as ruas participam de nós mesmos
São ruas de lembranças,
Onde se fazem lembranças
Por isso fundação mítica de Buenos Aires
Fundação mítica de cidades, de todas as cidades
Se elas não chegam a ser míticas
Nada são, não as amamos, como Aloysius Bertrand amou Dijon
Antero matou-se em Lisboa, Borges leu a Divina Comédia em Buenos Aires
Machado escreveu na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
Ruas e largos e pontes – calçadas e mais calçadas
E vazios. E mitos.
XIX
Ninguém lerá meus poemas, serão todos desconsiderados
Inexistentes no seu todo. Que sejam.
Eles jamais saltarão de páginas e telas brancas
Viverão aqui nesta eternidade singela.
(Meus poemas não saberão ser nada, não serão nada).
Frases abandonadas em si mesmas,
Frases secas, ou frases que nasceram de mim
E não retornam a mim.
Frases que se perdem no caminho.
Frases combinadas e criadas a partir do singularíssimo
A partir do intranscendente;
De mim.
Quem me lê, se as lê,
Não poderá reconstruir a sua experiência – a originária
Mas sim ascender a uma novíssima experiência,
Destino, então.
XX
“les maisons sont les lieux du monde (de notre petit monde).”
(Nourissier)
Lá fora há um tempo sem fim
Pois caminhei sem fim e sem nada esperar,
Que caminhada insana
Que caminha insensata.
Lá fora se fez um dia sem fim
Na espera do qual, desejei meu melhor dia
Mas não se podem desejar dias,
Nem se podem preenchê-los.
Lá fora estava vagando em ruas
Mesmo em casa, mesmo com conforto,
Sim mesmo me sentido em casa,
Mesmo com tudo.
Não bastará; nem nunca basta.
Eu estava lá fora
Absorto, em mim mesmo:
Na Avenida Rio Branco caminhei sem fim...
XXI
Há dias estou assombrado por uma frase;
Antes que os dias se transformem em anos,
Escreverei-a inadvertidamente em meu metapoema:
Mesmo o exercício do mal tem limites.
Se alguém me lesse confessaria:
Se algo tem limites seria tão-somente o Mal.
Apenas se alguém me lesse.
Não haverá, então minha frase jaz abandonada.
Abandonada em si mesma.
Como todas as frases vivas.
Como tudo que pode ser.
Em si. Somente.
Mesmo o exercício do Mal tem limites.
É daí que vem minha insanidade universal,
Brota desta espécie de sabedoria,
Desta espécie de sentença.
XXII
“Die Welt des Daseins ist Mitwelt. Das In-sein ist Mitsein mit Anderen.”
(Martin Heidegger. Sein und Zeit, §26)
Já vi a dor expressa em rostos
Não foi solene
Nem expressivo, nem nada.
Não foi nada além da dor.
Já vi a dor expressa em um rosto
Foi urgente
Foi a máxima expressão da finitude humana;
Humano, por isso urgente.
Já a vi dor expressa em um rosto
E depois,
No depois eterno, interminável;
A adesão total, Mitsein.
Ao que sente dor
Não há metafísica possível
Não há palavra possível;
A poesia apenas tenta ali chegar.
3.
O Possível
“All my thoughts are with you on this supreme day my darling.”
(Winston Churchill)
“Ô terre devenue tendre!”
(René Char)
XXIII
Houve apenas um silêncio.
Que bom que ele existiu.
Melhor assim, fiquemos assim,
Escutemos a voz poética dentro de nós mesmo.
Silêncio apenas.
Quando poderá surgir a palavra
Que é o dito e o não-dito
O Fora e o Dentro
Tentemos escutar o silêncio.
Chanson murmurée de Bertrand, contudo sem ser ouvida
Somos esta canção que não pode nem poderá ser ouvida
Poderá, quem sabe, tentar ser ouvida.
Após, só haverá desistência
Mais e mais desistência;
Que seja,
Desde que haja silêncio radical.
XXIV
A vida é tal que tudo se perde
E tudo se desfaz, tudo se desencontra
A vida é tal que só se admite o instante, o momento
Que seja.
E no instante pode haver sentido
Trabalhe-o, cultive-o, sacie-se
Depois ele se perderá
A vida é tal
Não falo de perder ou ganhar
Porém de sentido que é precário
Está no instante onde murmuraremos algumas canções insanas
Se vai.
A quem encontro, e se encontro;
Pouco importa, se tudo nos é precário
Mas a quem não se encontra;
Enciclopédia de mim mesmo
XXV
Coloquei um ponto final em minhas frases
Um ponto, apenas um ponto
Mancha suave que permanece inerte
E pode representar sinceramente o que pode ser dito.
Ponto final.
Oh sincero ponto final
Que jaz como mancha negra em minha frase não-lida
Ponto final do não-dito, o velado.
Aletheia: que se desvele meu ponto final?
Far-se-ia para que, não o sei.
Ponto final insano, ponto final heideggeriano, ponto final sem fim
Sinal de mim mesmo
Frases que se encerram,
Frases que são escritas
E que procuram seu final
Seu ponto final. Ponto.
XXVI
Gostaria de escrever um soneto como Antero
No seu estilo, com sua voz
Com sua forma lusa de escrever versos.
Não posso fazê-lo
Abro minha confissão neste poema.
Um soneto que contasse a história de personagens que vi;
Mas desde que não fosse lido em voz alta:
Um soneto um verso nunca pode ser gritado.
Queria um desses lusos sonetos
(E como são belos e solenes)
Ali estaria a enciclopédia de mim mesmo;
E não importaria que não fossem lidos.
Um soneto na página branca
Uma respiração na página branca
Um átimo na página branca
Apenas instantes.
XXVII
Não existem momentos supremos
O que há é um dia-a-dia sem fim;
Não existem dons supremos
Mas sim um banal observar;
Observamos a vida e o que nos circunda
Retiramos disto nosso Norte, — e seguimos:
De nada valeria permanecer,
Sigue en el tuyo.
Não se pode permanecer
Então procedemos a marcha mais dura;
Aquela na qual não olhamos para trás, — não como um Orfeu
Para que não sejamos Sísifo.
“Un espoir plus étroit que la voile latine”:
Não existem caminhadas superlativas
Nem portos, nem velas que nos levem lá.
A vela de meu barco se recolhe.
XXVIII
Pouco se me dá se não me escutas
Não desejo consentimento
Não desejo olhos consentidos ou entregas
Apenas, talvez, arrebatamento.
Pouco se me dá se queres me escutar
Nada tenho em meus dedos ou mãos
Nada terei nos próximos anos;
Só terei nos próximos instantes.
Pouco se me dá se não me encontras
Se tens sede, eu tenho
Se tens fome, eu tenho
Mas a fonte não é a mesma.
Não deves ler minhas quadras
Eles desistiram.
Eles se foram.
Restam pontos finais nos versos. Apenas.
XXIX
O último soneto de Gabriele d’Annunzio
Tem sido o meu primeiro;
Exausto eu o sussurrei.
Exausto eu o li umili in atto.
O soneto me veio quando vi a tela branca.
Saltou-lhe algo
Saltou-lhe palavras
Mas fez-se silêncio. Após.
O soneto vem quando há páginas brancas.
Brancas as páginas, sempre brancas as páginas
A espera da escrita que não vem,
E se vem, são as palavras não lidas
Farsa breve
Brevíssima poesia
Insana breve distante
Mas silêncio.
XXX
Que me mandem um sinal
Devo dizer:
Não ando em grupos.
Desagrego-me
Que me mandem um sinal
Não o desejo, não o quero
Desagreguei-me
Mitsein abortado
Só.
Palavra que cabe numa frase
Mitsein fracassado
Só.
Palavra que é todo um verso.
Que não me encontrem não me vejam
Enciclopédia de mim mesmo;
Delírio restante.
XXXI
“Seit ein Gespräch wir sind /Und hören können voneinander.”
(F. Hölderlin)
Que dialética mais perversa
Seguirem-se os dias
Passarem-se as noites;
Nada mais.
Poesia que a tudo destrói.
Que a tudo desorganiza,
Passando dias
Passando noites.
“Il verso è tutto”: D’Annunzio
Pode ser tudo.
Mas não pode comunicar, —
É o não-dito
É o que jaz na mais humana solidão
No mais, é palavra
Diálogo que se aborta,
Diálogo que se refaz.
XXXII
Não corrija a frase que se desvela.
É apenas frase
Tão-somente frases que surgiram.
Deixa-as partirem como vieram.
Deixe o silêncio destas frases.
Por que ele falará.
E deixe o silêncio ser plural
Ele falará, então.
Escuto um piano, é numa gravação
Antecede o som —
Um silêncio total
É de minh’alma, se isto existe.
Depois do som e das teclas
Só creio no silêncio:
Desde que seja total e nada mais reste.
Só, se isto existe.
XXXIII
Callao y Santa Fé
Numa esquina de Buenos Aires
Havia um prédio;
Lá onde ficaram os melhores dias.
Callao y Santa Fé
Fundação mítica de mim mesmo.
Ou apenas história e lenda que ninguém conhece.
Lieti giorni de Petrarca...
Houve quem sabe, um prédio
Lenda que ninguém chegará a saber
Dias que ninguém conhece
Callao y Santa Fé
Destino escondido
Destino oculto
Apenas num prédio
Apenas numa esquina.
4.
Naquele Momento
( Parte Final )
“Le Moi répond, après tout, à tout appel; et la Vie n’est au fond que possibilité.”
(Paul Valéry, Variété IV)
XXXIV
Nenhum momento
Deve ser solene ou superlativo
Deve ser momento
E estar aí jogado em si mesmo.
Do tudo ou pouco que fizemos,
No balanço final que se fez:
Nada restou.
Do muito ou do pouco: nada.
As ruas, as confissões, a suprema solidão
As dores, a caminhada, a cidade
A noite, do dia, a livraria, as calçadas, a chuva;
O livro que tomo em minhas mãos.
O que esperamos de nossos atos?
Se nascem em absoluta solidão?
De mim para comigo
Num Mitsein abortado.
XXXV
Silêncio. Fez-se silêncio.
Mais uma vez.
Silêncio.
E foram poucas as palavras.
Meu dom foi o silêncio.
Meu dom foram as mãos —
Estas.
E teu dom ouvir o pouco que pude dizer,
Sem palavras superlativas
Sem comandos
Sem Moral Suprema
Apenas silêncio.
Por isso o silêncio.
O meu silêncio
Este que vivo, o silêncio é tudo
O que te ofereço.
XXXVI
R
* O Mito da Caverna, 2001. Óleo sobre tela 120 x 210 cm.